18 de junho 2010
Cristiano Cechella
A diplomacia possui um papel de suma importância para os investimentos das empresas no exterior. Para além das acções de apoio e estímulos, é nesta que, no limite, as pessoas e instituições buscarão orientação em caso de conflitos políticos, económicos e sociais graves no país hospedeiro de determinado investimento, auxiliando a resolver os mais variados litígios empresariais. Especificamente, este artigo aborda a influência da diplomacia económica nos investimentos das empresas brasileiras em Portugal.
A diplomacia económica pode ser definida como o processo através do qual os países procuram ganhos mútuos ou superar mal entendidos recíprocos nos diversos ramos da actividade, incluindo o comércio, o investimento e outras formas de intercâmbio. Possui a dimensão bilateral, regional ou multilateral.
Entre os principais objectivos da diplomacia económica estão ainda:
- Promover a imagem de um país como produtor de bens e serviços de qualidade, como destino turístico e para investimentos de excelência;
- Aprofundar relações com os principais agentes económicos estrangeiros, com os decisores dos investimentos económicos e com os responsáveis por fluxos e rotas de comércio importantes;
- Apoiar a internacionalização das empresas, tanto no comércio como no investimento directo estrangeiro;
O governo brasileiro, a partir de 2003, mesmo vindo de uma ideologia que era um tanto avessa às multinacionais, reconheceu a importância dos investimentos nacionais no exterior para o reforço da competitividade das empresas. O Presidente da República instou os empresários a “abandonar o medo tornarem-se homens de negócio multinacionais”, colocando como objectivo de ter, pelo menos, 10 companhias brasileiras realmente transnacionais no final do seu mandato”, número que, como estamos a presenciar, foi bastante ultrapassado.
No caso da tese, procurou-se medir a importância e o papel da diplomacia económica para os investimentos das empresas brasileiras em Portugal (ver gráfico).
Em primeiro lugar, destaca-se a disponibilização de informações sobre o mercado para as empresas brasileiras que actuam em Portugal, factor no qual as empresas brasileiras pensam que poderia ser de mais fácil acesso e com maior abrangência. Perguntou-se às empresas se estas consultaram algum site ou órgão governamental na decisão de investimento, sendo que 70% das respostas foram negativas, talvez pela imagem que o serviço público ainda possui no Brasil, de burocracia e lentidão.
Entretanto, isto não quer dizer que a diplomacia económica não esteja a fazer um trabalho de qualidade, e sim que pode estar a faltar um canal de ligação entre empresas e governo, afim de, por exemplo, fazer saber a função de cada instituição no processo dos investimentos directos brasileiros no exterior.
Quase na mesma importância estão os factores logísticos. Neste item enquadra-se a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), a qual está ligada a aspectos como a articulação comercial e inteligência competitiva.
Em terceiro lugar encontra-se a questão da promoção comercial como, por exemplo, a organização e a presença em feiras e eventos comerciais e culturais, bem como a questão do aperfeiçoamento da imagem do Brasil no exterior. Houve um empresário, da área de fármacos, que disse ter desvantagem comercial pelo facto de o Brasil ainda ser visto fundamentalmente como um país alegre, com belezas naturais, futebol, carnaval e rico em commodities (não que estes factores não fossem de importância genuína para o país), sendo que se deveria também aumentar a divulgação do avanço tecnológico da economia brasileira em sectores como a medicina, a aviação comercial, indústria farmacêutica, o agrobusiness, entre outros.
Por fim, salientamos a reforço do apoio diplomático através da criação de canais de relacionamento sistemático entre as empresas e a diplomacia, o que reforça o primeiro factor posto acima. Sob o prisma financeiro, existe o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES) para as empresas que desejam internacionalizarem-se.
De uma forma geral, o papel desempenhado pelo governo do Brasil na promoção dos investimentos em Portugal foi dito pelas empresas como satisfatório. Considerando que o investimento directo das empresas brasileiras de forma sistemática, Portugal inclusive, é um fenómeno bastante recente, bem como o facto das empresas, pela sua própria dinâmica, não esperarem demasiadamente pelos órgãos governamentais para investir (não retirando a importância destes), é um resultado excelente.
Os países diferem consideravelmente nas suas acções e políticas institucionais para a promoção do investimento das empresas no exterior. Uma promoção activa envolve uma série de instrumentos e agências, públicas e privadas. Tais políticas necessitam ser definidas no contexto da competitividade e da estratégia de desenvolvimento do país.
Para os países como o Brasil, o qual já possui nesta área pessoas e instituições do mais alto gabarito, mas que ainda está a ampliar os seus instrumentos de apoio ao investimento das empresas no exterior, uma série de opções estão disponíveis no actual contexto da sociedade da informação.
* Cristiano Cechella é economista. Mestre em Economia Empresarial pela Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro, e Doutor em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, de Lisboa, assina série de artigos especiais para o Portugal Digital sobre o investimento brasileiro no mercado português. E-mail: ccechella2004@yahoo.it
Fonte: PORTUGAL DIGITAL