Em entrevista ao semanário português País Económico, o presidente do Conselho das Câmaras, Rómulo Alexandre Soares, analisa o estado das relações bilaterais, os desafios da competitividade, o papel das câmaras de comércio e o VI Encontro Empresarial do Conselho, a realizar no próximo ano em Porto Alegre.
Rômulo Alexandre Soares é presidente do Conselho das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil e constitui um dos líderes empresariais da diáspora portuguesa no Mundo. Nascido em Moçambique, passou por Portugal e desde há praticamente duas décadas se estabeleceu no Brasil. O atual presidente do Conselho das Câmaras Portuguesas de Comércio em território brasileiro tem sido o grande arauto da estratégia de incremento da capacidade global dos países de língua portuguesa se articularem empresarialmente entre si, e com esse potencial ganharem posição noutros mercados.
De passagem por Lisboa, concedeu uma importante entrevista à País€conómico, onde além da abordagem do relacionamento econômico bilateral, referiu que no próximo ano a cidade de Porto Alegre receberá o VI Encontro Empresarial do Conselho, onde se abordará a temática das relações entre o Mercosul e a União Europeia.
O comércio bilateral entre Portugal e o Brasil cresceu cerca de 50% no primeiro semestre deste ano. Como avalia este crescimento comercial entre os dois países?
Em termos gerais, a avaliação aponta que o crescimento agora registrado aconteceu na medida em que no ano de 2009 houve uma forte diminuição do fluxo comercial entre Portugal e o Brasil. No fundo, este ano assiste a um retomar dos fluxos anteriores a 2009. Acredito que existem condições para manter uma rota ascendente no comércio bilateral.
O Conselho das Câmaras Portuguesas de Comércio realizou em 2005 um estudo, entretanto atualizado no ano passado, em que identificou um conjunto alargado de produtos portugueses com condições para vingarem no Brasil. Todavia, os números do comércio entre os dois países continuam muito enfocados num pequeno número de produtos. O que é preciso fazer para incrementar e alargar a pauta de produtos no comércio entre os dois países?
Ainda bem que recorda esse estudo elaborado em 2005 e atualizado no ano passado. No relacionamento bilateral entre Portugal e o Brasil ainda subsiste alguma retórica emocional e histórica do nosso relacionamento passado. Mas, isso no presente já importa muito pouco. O Brasil não vai aumentar as suas importações de Portugal porque fala a mesma língua ou devido às afinidades culturais. O que esse estudo menciona é que Portugal pode aumentar as suas exportações para o Brasil porque é competitivo em alguns produtos que o Brasil não produz e que naturalmente importa de vários países do Mundo.
Portugal precisa mostrar esses produtos potencialmente competitivos ao mercado importador brasileiro. Naturalmente que isso é uma função das próprias empresas produtoras, mas igualmente existem responsabilidades de várias entidades como o Governo, agências de promoção e nós próprios, as câmaras de comércio. As empresas produtoras precisam fazer o seu trabalho de casa, mas precisam de apoios ativos dos diversos organismos que podem ajudar no bom desempenho das suas missões de amostragem e colocação dos produtos no mercado brasileiro. Há potencial, repito, para Portugal aumentar de forma significativa a sua exportação para o Brasil na medida em que possui produtos com capacidade competitiva para entrarem e vingarem no mercado brasileiro. Mas é preciso ir mais além do que atualmente.
Tanto ou mais estratégico do que o comércio, é o investimento. Neste mesmo período – seis meses – de 2010, Portugal passou de 13º para 6º investidor no Brasil. Como observa a importância do mercado brasileiro enquanto espaço capaz de emprestar dimensão global para muitas empresas portuguesas?
Naturalmente que a inserção de Portugal na União Europeia já confere às empresas portuguesas um amplo e competitivo espaço empresarial para crescerem e se afirmarem. No entanto, é verdade que o Brasil, pela sua dimensão e potencial econômico, poderá ajudar a conferir uma dimensão importante para muitas empresas portuguesas, e não refiro apenas às de maior dimensão.
Realço, contudo, que o Brasil ainda é um país um pouco fechado, não que receba mal o investidor estrangeiro, mas pelo seu gigantismo tem sido um mercado que se tem bastado a si próprio, pelo que, não sendo propriamente nocivo quanto ao investimento estrangeiro, também não se tem revelado fácil para quem vem de fora.
Considero, pois, que o Brasil como grande mercado que é pode ser importante para qualquer empresa estrangeira, mas é preciso ter cuidado, como é preciso ter cuidado quando uma empresa pretende entrar na China, por exemplo, ou noutro qualquer mercado externo. Não podemos pensar que por falarmos a mesma língua, os ambientes de negócios são iguais. Não são.
Nordeste brasileiro é competitivo
O que é que o Nordeste do Brasil possui de mais-valia para atrair os investimentos portugueses?
Dentro do Brasil existem vários brasis e dentro do Nordeste existem vários nordestes. Mas vamos ficar pela primeira parte desta frase. O Brasil precisa corrigir diversas e profundas desigualdades regionais no país, e aparentemente estamos nessa fase de correção, em grande medida devido às políticas levadas a cabo pelo Governo Federal nos últimos anos que trouxe várias dezenas de milhões de brasileiros para o mercado através de políticas de inclusão.
E isso foi sentido de forma muito significativa no nordeste brasileiro que, como sabe, é composto por nove estados, que vão desde a Bahia até ao Maranhão. O desenvolvimento que se tem registrado no nordeste brasileiro nos últimos anos aumentou, pois o potencial de mercado de consumo e de investimento tanto no plano interno como no plano externo, aumentou significativamente e é agora bastante competitivo para quem nele pretende apostar.
E devo sublinhar que os portugueses têm sido dos que mais têm apostado no nordeste brasileiro, particularmente no que respeita ao investimento em turismo, tanto nas capitais como noutros pontos mais distantes. Recordo, apenas, que dentro de poucos dias o grupo português Vila Galé vai inaugurar o seu sexto hotel no Brasil, quinto no Nordeste, concretamente no Município de Caucaia, próximo de Fortaleza, e que só na fase de construção deu emprego a quase mil pessoas. Isso é muito importante.
Os negócios em língua portuguesa ganharam vida
Mencionou o nome de Fortaleza, a capital do Ceará onde em Setembro do ano passado se realizou o V Encontro Empresarial de Negócios na Língua Portuguesa. Um ano depois, quais os resultados possíveis de apontar dessa realização?
O encontro de Fortaleza trouxe para o Brasil o debate sobre a CPLP, tendo como resultado prático, do ponto de vista brasileiro, que vários estados no Brasil que não conheciam Angola e Moçambique, por exemplo, passaram a realizar missões empresariais a estes países africanos de língua portuguesa. Só por isso já ficaria feliz pelo encontro de Fortaleza e pelos seus resultados, pois recordo o que a frase chave desse encontro "fazer negócios na língua portuguesa" ganhou vida.
Mas registraram-se mais resultados positivos que de alguma forma também emanaram da capital do Ceará. A primeira resultou da transformação do anterior Conselho Empresarial da CPLP em Confederação Empresarial da CPLP, que aconteceu em Julho deste ano em Luanda, a capital de Angola, país que preside à própria Confederação.
Depois, e isto é muito significativo, aconteceu com a entrada da Confederação Nacional da Indústria do Brasil na Confederação Empresarial da CPLP, o que conferiu uma forte representatividade brasileira na própria Confederação. E isso faz toda a diferença entre a anterior situação e a presente situação, pois agora a principal entidade empresarial brasileira participa nos órgãos colegiais da Confederação Empresarial da CPLP. No fundo, do ponto de vista institucional tudo mudou, e mudou após o encontro de Fortaleza. Fico muito satisfeito por Fortaleza ter sido o palco que acelerou essas mudanças positivas no mundo empresarial lusófono.
E no que respeita a negócios concretos, considera que Fortaleza também terá ajudado empresas dos diversos países de língua portuguesa a realizarem negócios em conjunto?
Sem dúvida nenhuma. Repare neste exemplo concreto. A linha de tráfego marítimo do nordeste brasileiro com Angola é realizada conjuntamente por uma empresa brasileira e por uma portuguesa. Considero mesmo que as empresas brasileiras e portuguesas descobriram que em vez de competirem podem colaborar e realizar projetos e negócios em conjunto, tanto nos seus mercados internos, nos restantes mercados dos países de língua portuguesa, como noutros relevantes mercados internacionais.
Em Porto Alegre abordaremos a relação do Mercosul com a União Europeia
Em Abril deste ano foi reeleito presidente do Conselho das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil. Quais serão os momentos chave deste novo mandato?
Gostaria de sublinhar que quando fui eleito pela primeira vez tinha decidido estar apenas um mandato à frente dos destinos do Conselho e bastante comprometido na realização do encontro que viríamos a realizar em Setembro de 2009 na cidade de Fortaleza. Eu queria realmente levar para o Ceará (devido ao posicionamento estratégico do estado face a Portugal e ao continente africano) a discussão em torno do espaço dos países de língua portuguesa. É reconhecido que fomos muito bem sucedidos nesse encontro e digo-o não tanto pela minha pessoa, mas sobretudo pelo que isso valeu no plano do relacionamento entre os países que falam o português no Mundo.
Entretanto, em Abrir deste ano, na reunião que realizamos em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, foi colocada a hipótese de eu permanecer à frente dos destinos do Conselho num mandato de transição, em que durante um ano estarei na presidência para passar depois para a Câmara Portuguesa do Rio Grande do Sul, a quem caberá no final do próximo ano a realização do VI Encontro Empresarial do Conselho das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil.
Aliás, a minha presença neste momento em Portugal também se relaciona com a abordagem desse encontro que se realizará no próximo ano em Porto Alegre, tendo discutido com autoridades portuguesas e com a própria embaixada do Brasil em Portugal, a possibilidade da temática a abordar no Rio Grande do Sul ser a do relacionamento entre o Mercosul e a União Europeia, pois recordo que aquele estado do sul do Brasil faz fronteira com a Argentina e o Uruguai, logo está em excelentes condições como palco para se debater o relacionamento entre os dois grandes blocos econômicos, pois sublinho que quando presentemente falamos de investimentos na América Latina, em grande medida, estes são liderados pela Península Ibérica.
A sinalização que recebi foi muito positiva, pelo que no final do próximo ano estaremos em Porto Alegre para abordar o relacionamento entre o Mercosul e a União Europeia.
Fonte: País Econômico
Entrevista: Jorge Alegria